| SOLIDÔNIO - QUASE UM MITO! By Jaime Rangel de Morais O MENINO Solidônio nasceu no pequeno município de São Mamede, estado da Paraíba, localizado em plena caatinga, castigada pela seca. Filho de pais pobres, que nunca tiveram como se deslocar para um centro mais desenvolvido, onde pudessem dar uma educação mais aprimorada aos filhos, Solidônio foi criado, até os quatro anos, na zona rural, quando a família se viu obrigada a abandonar a agricultura, por causa da seca e se estabelecer na sede do pequeno município. O nosso personagem não se dedicou aos estudos devido ao seu estado de saúde que não era dos melhores, o que, segundo o seu professor, não contribuiria para o desenvolvimento da sua inteligência... e ficou o garoto sem estudar, vítima das brincadeiras de mau gosto dos seus ex-colegas. Porém, o menino desenvolveu, sim, uma inteligência fora do comum, o que passou a chamar a atenção de muita gente. Foi um legítimo autodidata e aprendeu rapidamente a ler, sozinho, encolhido pelos cantos com a sua cartilha entre as pernas, silencioso e arredio. Nunca mais, entretanto, quis entrar numa escola. Não foi, é verdade, um exemplo de formação cultural, mas nunca precisou de ninguém para lhe explicar aquilo que lia. Antes de completar os dez anos, já era o líder da sua turminha, pois construía brinquedos de madeira que chamavam a atenção pela originalidade e perfeição. Fazia complicadas engrenagens, um emaranhado de rodinhas de madeira e cilhas de couro que, ao girar de uma pequena manivela, provocava uma série de movimentos distintos e curiosos em toda a máquina. Logo cedo, começou a acompanhar o seu pai no trabalho, ajudando-o a fazer peças de couro, ferro, metal e madeira. Havia nascido um dos maiores artistas que a Paraíba conheceria. Em São Mamede, lá pelos idos 1935, havia uma pequena banda filarmônica que começou a atrair as atenções do já rapaz Solidonio, ou “Doninho”, como era chamado intimamente. Sempre que possível, ficava a admirar os instrumentos, examinava-os, e, quase sempre, tentava tirar sons numa clarineta ou numa requinta, dois instrumentos que mais lhe atraíram. O maestro da banda não fez por menos: vendo o interesse de Doninho, convidou-o para assistir às aulas de música que eram ministradas todas as noites na sede da banda, o que foi aceito de imediato. Havia naquele jovem o desejo de aprender tudo o que lhe estivesse ao alcance... e, logo, lá estava ele a desfilar orgulhosamente no meio dos músicos, como o primeiro clarinetista da banda filarmônica de São Mamede. Não ficou por aí, entretanto. Na sua ânsia de se aperfeiçoar, sentiu que a clarineta que lhe entregaram estava carcomida pelo tempo, começava a desafinar, o que prejudicava o bom desempenho do músico. Com a permissão do maestro, que não media distância para incentivar o rapaz, Solidônio levou a clarineta para tentar conserta-la, sabendo que seria uma tarefa difícil. Tentou e, a cada passo, tornava-se mais difícil recuperar aquele instrumento. Tomou, então, a decisão que haveria de projetar o seu nome em todo o meio artístico-amador estadual e nacional! Seu pai, João Girolme, como era chamado e conhecido por todos, trabalhava como artesão, na fabricação de selas, arreios e demais acessórios para montarias animais. Nas horas de folga, entretanto, se dedicava a pequenos consertos mecânicos e tinha uma rústica oficina onde só havia ferramentas manuais,visto que a eletricidade ainda não chegara ali. Somente limas, serras, martelos, alicates e uma furadeira manual, feita por ele mesmo! E foi neste cenário que Solidonio, com o incentivo do pai, começou a fazer a sua primeira clarineta!...A tarefa parecia de gigante, não havia recurso técnico nenhum que facilitasse o trabalho, mas isso não intimidou pai e filho. Começaram as pesquisas,,, Como a clarineta é feita de madeira, tiveram de descobrir qual seria mais indicada, e decidiu-se que o melhor seria uma espécie dura, que não permitisse a infiltração de umidade, o que poderia prejudicar a pureza do som. O sertão paraibano é rico em espécies as mais variadas, e Solidonio não teve dificuldade em se decidir pelo ANGICO, cujo miolo é duro e resistente, difícil de ser trabalhado. E foi do miolo do ANGICO que surgiu aquela obra prima. Primeiro foi necessário construir um TORNO MECANICO... de madeira, para fazer o desbaste do angico, dando forma ao instrumento. Segundo, foi preciso adaptar o mesmo torno para perfurar a madeira em todo o seu comprimento, vindo, depois, um acabamento esmerado e detalhado, feito completamente à mão. Não se comprou nenhum acessório para o instrumento, nem mesmo as chaves de metal que possibilitam a maior variedade de sons. Para isso, foi montada uma pequena fundição de metais, tudo artesanal, e, depois de fazer todos os moldes em madeira de umburana, procedeu-se a fundição das chaves, com metal branco, de muita beleza. Novamente o acabamento meticuloso e caprichado, como tudo o que ele fazia, aliás. Quase dois meses se haviam passado, fazendo, perdendo e fazendo novamente, testando, etc...E, numa bela tarde de domingo, os primeiros sons daquela clarineta artesanal se fizeram ouvir, tocados pelo seu construtor!!! Empenho, perseverança e sucesso! | As notícias correm ligeiras numa cidade pequena e, logo, todos sabiam do grande feito daquele jovem que, um dia, foi desaconselhado a estudar, porque a sua inteligência seria insuficiente para aprender. Quando alguém lhe perguntou se não teria sido mais fácil comprar uma clarineta nova, Solidonio respondeu:-“Sim... mas eu não estaria sabendo que sou capaz de fazer uma!...” Isso foi, apenas o primeiro impulso A partir daquele dia, Solidonio, ou Doninho, não parou mais de criar, de fazer, de inventar. Criava coisinhas simples para divertir os amigos!... certa vez conseguiu fazer uma caixinha de madeira, onde colocou uma nota de dez mil réis (moeda da época) e desafiou qualquer um a ganha-los se conseguissem abrir a caixinha . Ele abria, a um simples toque, porem ninguém conseguiu ganhar os dez mil réis. Sua vida foi de desafios que ele lançava contra si próprio. Durante muitos anos trabalhou como protético dental sem nunca ter freqüentado um curso Os habitantes das cidades vizinhas acorriam em busca dos seus serviços. Traziam-lhe armas para consertar, quando outros artesãos se recusavam a fazê-lo, alegando que não havia mais condições de conserto...então ele fazia as peças que faltavam Ao lado das muitas clarinetas e requintas que fabricou, existem outras obras de suas mãos. Senão vejamos! De tantos consertos, que eram verdadeiros milagres de recuperação, surgiu, pouco a pouco, na mente previligeada do nosso personagem, o desejo de criar uma arma de caça simples... simples de usar, simples de consertar, sem que houvesse perda de qualidade e de eficiência. E criou uma espécie de espingarda cartucheira de manuseio extremamente simplificado, indicada para a caça de pequenos animais, mas que, dependendo da necessidade, poderia disparar balas de calibre 44 com a mesma precisão de um WINCHESTER de longo alcance. Às vezes ele se recolhia em profundo silêncio, sentado em uma cadeira de balanço, que embalava lentamente. O olhar ficava perdido na distância, durante horas e ninguem ousava interromper aquele recolhimento! Ao levantar-se, caminhava lentamente até à sua oficina rústica, onde a única máquina elétrica existente era um tôrno mecânico, de aço, que ele mesmo construira... Começava, então, uma maratona ao som de marteladas, ruído de limas desbastando aço, serras em movimento e o resfolegar cansado de um "fole" entremeado do ruído estridente de uma ventoínha manual, utilizada para fundir metais. Era o "gênio" desdobrando-se em criar materialmente aquilo que já criara mentamente, desprezando toda modernidade e fazendo questão de fazer, ele próprio, as ferramentas mais complicadas. Merece destaque as engenhocas que ele criou para fazer o cilindro onde se alojam as balas do revólver; outra que ele criou para fazer os sulcos existentes no interior dos canos das armas e que possibilitam maior precisão de tiro... Solidônio fabricou rifles repetição que nunca vendeu... destruia-os ou presenteava amigos. Sua última criação foi um revólver cal. 38 totalmente de bronze no exterior e completamente de aço no seu interior. Uma verdadeira obra de arte, dourada e reluzente que despertou a cobiça de muitos, mas que nunca fez despertar em Solidonio a cobiça pelos milhares de reais que lhe ofereceram por ela. O que maravilhou a opinião pública, entretanto, foi a simplicidade desse jovem, humilde pelas suas origens e pela sua personalidade simples. Fazia questão de trabalhar com o mínimo possível de recursos técnicos pois, segundo ele. “eu quero ter o prazer de dizer que eu fiz com as unhas e os dentes” (risos). Acredito que, ainda hoje, num determinado museu carioca onde estão os pertences de Getúlio Vargas, existe uma sela “roladeira”, toda feita em couro de bode e com botões de metal branco, presente de um empresário paraibano ao então Presidente da República. Essa sela, foi feita por Solidônio e seu pai, João Girolme , como era conhecido o sr. João Evangelista de Morais., residente na rua da Usina – São Mamede (PB), como consta num carimbo existente no interior da capa da mesma. Ambos, pai e filho, estão sepultados em São Mamede (Pb). Hoje, pouca lembrança resta desses dois gênios da arte que tanto ajudaram a projetar o nome de São Mamede no cenário nacional!!! São Mamede - PB, 22 de Maio de 2009 copyright © todos os direitos reservados |